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Wally Pfister, os olhos de Christopher Nolan

Wally Pfister, os olhos de Christopher Nolan

Diretor de fotografia braço direito de Christopher Nolan desde Amnésia (Memento, 2000), Walter “Wally” Pfister já foi indicado a quatro Oscars de Melhor Fotografia, vencendo em 2011 por seu trabalho em A Origem (Inception, 2010). É membro da American Society of Cinematographers (ASC) desde 2002, e da British Society of Cinematographers (BSC) desde 2011.

Seu trabalho e seu interesse por cinema começaram muito cedo. Quando tinha apenas 11 anos, Pfister foi surpreendido pelas gravações do filme Shamus (1973) no bairro em que morava, e ficou encantado pelos equipamentos de filmagem, observando atentamente enquanto montavam as luzes e câmeras. Logo ele começou a gravar filmes caseiros e curtas-metragens em 8 mm. Pfister também foi incentivado por seu pai a montar slides em filme Kodachrome para apresentá-los em shows pequenos para a família e amigos.

A partir deste momento, Pfister começou a trilhar seu caminho por trás das câmeras. Seu primeiro trabalho foi como assistente de produção na emissora WMDT-TV. Depois começou a gravar diversos curtas-metragens trabalhando a 125 dólares por semana. Conseguiu emprego como operador de câmera para um noticiário em Washington, cobriu o Congresso dos Estados Unidos, a Casa Branca e as últimas notícias de 1982 a 1985. Em 1985, Pfister iniciou sua carreira de freelancer gravando cenas para documentários da série Frontline (1983), da PBS. Em 1988, trabalhou como cinegrafista de segunda unidade na mini-série da HBO Tanner ‘88 (1988). Esta foi, então, a primeira vez em que Pfister foi exposto a um material de dramaturgia. Foi o suficiente para perceber que era exatamente o que ele queria para a sua vida.

Pfister matriculou-se na American Film Institute. Durante seu segundo ano, ele trabalhou com colegas de classe em um curta chamado Senzeni Na? (1990), que foi indicado para o Oscar de Melhor Curta-Metragem em Live Action de 1991. Seu primeiro longa foi The Unborn (1991). Depois disso, Pfister dedicou-se a gravar uma série de filmes de terror em uma média de 15 dias para cada.

A grande virada em sua vida aconteceu em 1999. Pfister gravou The Hi-Line (1999), que entrou na competição do Festival Sundance de Cinema do mesmo ano. Lá Pfister pôde conhecer Christopher Nolan, que estava concorrendo a outro prêmio em um festival vizinho.

“Quando eu assisti The Hi-Line (1999), imaginei que era um filme muito bem executado que foi claramente produzido com recursos limitados”, disse Nolan. “Eu tive que encontrar o cara que o gravou.”

Cerca de um ano depois, enquanto Pfister estava trabalhando em um filme no Alabama, ele recebeu o roteiro de Amnésia (Memento, 2000) por e-mail. Depois de lê-lo, pegou um vôo na manhã de domingo para Los Angeles para se encontrar com Nolan. O resto é história.

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“Houve uma sinergia que afetou nossa capacidade de traduzir idéias em imagens”, disse Nolan.

“Chris (Nolan) traz muita alma ao seu trabalho e isso me inspirou. Utilizamos cores, luz e escuridão para ajudar a definir o tom de como a história evoluia, e filmamos cerca de um quarto do filme em preto e branco”. Pfister e Nolan utilizaram livros de fotos feitas por Gordon Parks em preto e branco para buscarem inspiração.

O sucesso dessa colaboração fez com que Pfister assumisse papel de diretor de fotografia dos filmes posteriores de Nolan. Primeiramente gravaram Insônia (Insomnia, 2002).

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“Eu não ia dizer a Al Pacino como fazer o seu trabalho, mas eu estava esperando que ele pudesse abraçar a luz do ambiente em sua atuação. Eu disse a ele que a luz que eu estava trazendo através da janela era de oito pontos sobre-expostos”, disse Pfister. “Quando você estiver nas sombras, vai interagir com o clima do ambiente. Se você der um passo a frente, vai entrar em uma fusão de luz nuclear brilhante. Ele soube exatamente como tirar proveito disso.”

A colaboração seguinte entre Pfister e Nolan foi em Batman Begins (2005). Tudo começou com um telefonema de Nolan, que disse a Pfister que iria dirigir o filme, e que Christian Bale estava no papel principal. Nolan e Pfister mergulharam profundamente na história da franquia, incluindo as histórias em quadrinhos e os quatro filmes anteriores do Batman produzidos desde 1989.

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“Chris queria filmar Batman Begins (2005), sem depender de efeitos visuais”, disse Pfister. “Ele queria que fosse natural. Queria que o carro e os trajes de Batman não tivessem reflexo, que fossem preto fosco, para que pudessem ser escondidos nas sombras. Ele freqüentemente usou a palavra furtivo.”

“Quando filmamos Batman contra um fundo escuro ou contra o céu, usamos uma camada muito fina de fumaça para ajudar a separar o seu traje preto fosco do fundo”, disse Pfister. “Outras vezes usamos luz de fundo ou haviam luzes da cidade ao fundo. Bruce Wayne e Batman compartilham a mesma alma, que é refletida pela luz em seus olhos. Eu encontrei uma maneira confortável para iluminar seus olhos utilizando uma exposição muito baixa. Isso criou a luz dos olhos sem ficar com muito brilho.”

O filme seguinte da dupla foi O Grande Truque (The Prestige, 2006). A história se passa antes da transição da iluminação com velas para as lâmpadas elétricas e, apesar de muitos ambientes e cenas escuras, eles decidiram produzir em formato anamórfico 35 mm, forçando uma Kodak Vision 2 5218 500T em uma ou duas paradas.

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Logo veio Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008). Durante uma reunião inicial sobre o filme, Nolan disse a Pfister que queria produzir a seqüência de abertura de seis minutos, onde o público vê o Coringa pela primeira vez durante um assalto ao banco, em formato IMAX, elevando a dificuldade na produção.

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Pfister referiu-se a sua equipe de filmagem como “Meu grupo de Jazz… eu tocava guitarra em uma banda de Rock na escola. Ainda é uma das minhas paixões. Quando eu olho para uma imagem através de uma lente, eu ouço música em minha mente. Filmes, como a música, precisam de um sentido de ritmo, que afeta tudo, da composição à edição… eu uso as mesmas partes do meu cérebro para tocar uma melodia e para tomar uma decisão sobre como mover ou inclinar a câmera… trata-se de uma batida, ou um ritmo. É um esforço de colaboração com Chris, os atores, minha equipe e todo mundo que faz parte do time.”

Em seguida veio a obra-prima da dupla: A Origem (Inception, 2010), filmado parcialmente em 5-perf 65 mm.

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“O filme é baseado em uma história original que Chris sonhou há 15 anos”, disse Pfister. “É fascinante imaginar como seria o mundo dentro dos sonhos.”

“Nossa colaboração e nosso relacionamento evoluíram de uma forma fenomenal”, diz Pfister. “Nós desfrutamos do estilo de cinema verité. Chris ama a liberdade que isso dá a ele e aos atores, e eu amo o aspecto visual do estilo.”

Nesta citação, Pfister mostra como tudo o que viveu até então se converge para que ele possa executar seu trabalho com um estilo próprio. Suas experiências com documentários e notícias fizeram com que seu olhar fosse pautado pelo cartesianismo. Somado ao enredo surrealista de seus filmes (ilusionismo, super heróis, sonhos), Pfister cria trabalhos realmente surpreendentes.

Em 2012, Pfister volta a contribuir com Nolan no lançamento do filme Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Night Rises, 2012), o terceiro filme da trilogia do Homem-Morcego, declarando que grande parte do filme será gravada em IMAX, tendo apenas os diálogos filmados em câmeras comuns de 70 mm. Será mais uma grande oportunidade para acompanharmos o trabalho de um verdadeiro artista do cinema.


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