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Do Led Zeppelin ao Branding – Parte 1

Do Led Zeppelin ao Branding – Parte 1

Por Barney Hoskyns
Tradução de Ricardo Seelig
(matéria publicada originalmente na Classic Rock 161, de agosto de 2011)

Escritório da Atlantic Records em Nova York, primeiros dias do mês de setembro de 1971. De um lado o co-fundador da gravadora, Ahmet Ertegun. Do outro, o guitarrista e o manager de uma das bandas do selo, que estavam na cidade para um show que aconteceria no Madison Square Garden alguns dias depois. Preenchendo a mesa, os representantes legais dos dois lados.

O motivo desta tensa reunião era a capa do disco conhecido pelo número de catálogo Atlantic 7208, o quarto álbum do Led Zeppelin. Peter Grant, o temido manager do Led Zeppelin, informa Ertegun que o LP só será lançado se o desejo de seu guitarrista, Jimmy Page, for atendido: colocar o álbum nas lojas sem título e sem o nome da banda na capa. Ahmet Ertegun surta, balança as mãos para o ar e grita para todo mundo ouvir: “Como vocês querem lançar o disco sem o nome da banda na capa? Isso é suicídio!”.

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Phil Carson, então o chefão da Atlantic na Inglaterra, recorda o que se passou naquela sala: “A Atlantic falou: ‘Isso é loucura, o disco não vai vender’. Mas Grant respondeu na lata: ‘Podem colocar o LP dentro de um saco marrom que, mesmo assim, ele vai mudar a vida das pessoas’”. Peter Grant, cuja reputação aterrorizava a todos na indústria, deixou claro que Ertegun não teria acesso às fitas masters se a Atlantic não atendesse as solicitações de Jimmy Page. “No final da reunião eu pedi a palavra e falei: ‘Confiem em mim, as pessoas vão encontrar o disco e o comprarão’. É preciso lembrar que, naquela época, o Led Zeppelin era responsável por algo entre 20% e 25% do total de vendas da Atlantic. Meu trabalho era garantir que a banda continuasse satisfeita e gravando álbuns de sucesso”, completa Carson.

Dois meses depois, o quarto disco do Led Zeppelin chegava às lojas com nada na capa além de um quadro pendurado em uma parede com a foto de um velho barbudo carregando um monte de galhos. Na contracapa, por trás de escombros de casas demolidas, surgia um imponente e moderno arranha-céu. Para Jimmy Page, a capa representava “a mudança que estava acontecendo. Aquele velho homem estava cercado de apartamentos demolidos. Era uma maneira de dizer que devemos cuidar do nosso planeta, e não abusar dele”. John Bonham tinha uma visão mais prosaica: “Significa que eu prefiro viver em uma casa velha do que em um condomínio”.

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Mesmo na parte interna da capa, o nome da banda continuava ausente. No seu lugar haviam quatro símbolos rúnicos, o título das oito faixas e alguns créditos. Sobre a sinistra ilustração criada por Barrington Colby e conhecida como The Hermit, os quatro símbolos eram um mistério irresistível para o crescente número de fãs da banda, enfeitiçados pelo enigma que era o Led Zeppelin.

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O uso dos quatro símbolos como uma espécie de título do quarto álbum do grupo agregou ainda mais mistério à história da banda. O significado de cada um deles ainda hoje divide opiniões entre os fãs. Os símbolos foram apresentados para a mídia, primeiramente, através de uma série de teasers veiculados nas publicações da época antes do lançamento do álbum, com cada anúncio apresentando apenas um dos símbolos que fariam história no próximo disco do grupo.

Os símbolos utilizados por John Paul Jones e John Bonham foram retirados do livro The Book of Signs, de Rudolph Koch. O de Jones, um círculo invadido por três formas iguais, representa uma pessoa que possui, ao mesmo tempo, confiança e competência (ele é o mais difícil de desenhar com precisão). Os três círculos do símbolo de John Bonham representam a tríade formada por pai, mãe e filho. Ele também pode significar – vide a paixão que o baterista tinha pelas bebidas alcoólicas – a logo da cerveja Ballantine.

O de Robert Plant foi, ao que parece, desenhado pelo próprio vocalista, inspirado em um símbolo que Plant viu no livro The Sacred Symbols of Mu, de Colonel James Churchward. A pena dentro do círculo representa a pena de Ma’at, a deusa egípcia da justiça, e é o emblema de um escritor. “A pena é um símbolo presente em todas as formas de filosofia. Ela representa, por exemplo, as tribos de Caras Vermelhas dos Estados Unidos”, explica o próprio Plant.

O símbolo de Page, o enigmático “ZoSo”, tem várias teorias sobre a sua origem. Estudiosos dizem que ele surgiu em 1557 em representação ao planeta Saturno. Também se observou de que ele é constituído pelos símbolos astrológicos de Saturno, Júpiter e, talvez, Marte e Mercúrio. O mesmo desenho havia aparecido, em uma forma praticamente igual, em um raro dicionário de símbolos do século XIX chamado Le Triple Vocabulaire Infernal Manuel du Demonomane, de Frinellan, um pseudônimo utilizado pelo escritor Simon Blocquel, publicado em 1844. “Meu símbolo é sobre invocação e ser protegido. Isso é tudo o que eu vou falar sobre ele”, declarou Page ao jornalista Mick Wall em 2001.

Independente de seus significados, estes quatro símbolos se tornaram sinônimos dos músicos do Led Zeppelin, e ao longo dos anos foram sendo adaptados por Plant, Page e Jones em seus respectivos trabalhos solo. Mais recentemente Plant voltou ao tema, utilizando uma forma adaptada do seu na contracapa do álbum Band of Joy, lançado em 2010. Já Page colocou o ZoSo na capa da autobiografia fotográfica Jimmy Page by Jimmy Page, de 2011.

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Lançar um novo álbum sem o “Led Zeppelin” na capa (e também na lombada na lateral do disco) era um gigantesco “foda-se” para todos que acusavam a banda de ser apenas um grande hype. Incomodado com os comentários negativos publicados em grande parte da imprensa desde que a grupo havia surgido no final de 1968, Page queria provar que a música do quarteto poderia vencer pelos seus próprios méritos, sem o apoio dos nomes envolvidos. “A imprensa não me incomodou até o terceiro disco”, contou o guitarrista em entrevista para Steven Rosen, da Guitar Player, vinte anos depois. “Já éramos uma banda estabelecida, e a imprensa continuava afirmando que éramos apenas um hype. Foi por essa razão que o quarto disco saiu sem título. Era um protesto sem sentido, eu sei, mas nós queríamos provar que as pessoas não compravam os nossos discos pelo nome estampado no capa, mas sim por causa da música”.

“O gênio de Jimmy Page está no fato de que as pessoas sempre se esquecem das atitudes contra o sistema que ele tinha. Coisas como lançar discos sem qualquer informação na capa. Para mim, isso era mais punk do que os Sex Pistols assinando um contrato em frente ao Palácio de Buckingham”, afirmou Jack White, um grande fã da banda, em 2006.

Punk ou não, a coragem e as convicções do Led Zeppelin não foram mais questionadas a partir do momento em que o tal disco sem título – também conhecido como Led Zeppelin IV, ZoSo, Runes ou Four Symbols – se transformou no álbum mais vendido da banda (atualmente, ele ocupa a décima-segunda posição entre os discos mais vendidos de todos os tempos). Se os três primeiros LPs haviam transformado os caras do Led em estrelas, o quarto álbum os deu status de superestrelas. Em menos de dois anos eles eram, inquestionavelmente, a maior banda de rock do planeta.

Combinando o peso de Led Zeppelin II com o lado acústico de Led Zeppelin III, o álbum se equilibrava entre blues rock selvagens (“Black Dog”) e devaneios hippies (“Going to California”), rock retrôs (“Rock and Roll”) e mandolins medievais (“The Battle of Evermore”). E tinha também um épico de oito minutos intitulado “Stairway to Heaven”. “A música é como um caleidoscópio, e eu acho que esse disco em particular nos fez ir além em todos os sentidos”, declarou Robert Plant a NME na época.

“No meu ponto de vista, é a melhor coisa que nós já fizemos”, falou John Bonham a Melody Maker. “Jimmy foi absolutamente incrível neste disco”.

“Depois deste álbum, ninguém mais nos comparou ao Black Sabbath”, conclui John Paul Jones.

Fonte: Um por todos e todos por um: o making of de Led Zeppelin IV


  1. Jessica

    17 setembro

    Fantástico seu artigo! Parabéns!!

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