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A composição da direção de arte nos filmes polític...

A composição da direção de arte nos filmes políticos

O termo ou denominação do que é cinema político é uma discussão extremamente longa e abrangente desde o surgimento das teorias sobre o devir cinematográfico. A capacidade do cinema de produzir olhares sobre determinados momentos da história toca tão profundamente o público, que podemos dizer que todo filme é político, pois trata de uma análise embasada em múltiplos contextos sociais e culturais. O que proponho analisar nesse texto é a forma como a direção de arte conceitua imageticamente alguns filmes que tratam as relações políticas existentes desde sempre, dando a eles uma verossimilhança que transporta diretamente o espectador para aquele instante da história. Os filmes que abordam as relações políticas do mundo, desde os tempos dos reis e rainhas, como “Elizabeth” (1998 / 2007), “A Jovem Rainha Vitória” (2009), “O Discurso do Rei” (2010), “Gladiador” (2000), passando por momentos específicos como a ditadura militar em “Machuca” (2004), “Batismo de Sangue”(2007), “O ano em que meus pais saíram de férias”(2006), até filmes que mostram algumas relações obscuras dos governos, como “O Senhor das Armas”(2005), “Leões e Cordeiros”(2007), “A vida dos outros” (2006), “Frost X Nixon” (2008), colocam a direção de arte em um lugar de grande importância para a construção da essência da obra, dando a equipe desse departamento a possibilidade de enveredar por um mundo cheio de signos que permeia o universo da criação. Durante o processo de pesquisa para a construção estética de um filme todo o estudo que envolve o desenvolvimento da direção de arte tem a missão de transpor para a tela elementos visuais como narrativa. Assim sendo ao construir o mundo fílmico a direção de arte tem a possibilidade de recriar o tempo em que a história se passa, é nesse aspecto que o cinema político vem possibilitando verdadeiros mergulhos estéticos no cinema. Em sua grande maioria os filmes que abordam a política e os fatos históricos acontecem em um tempo passado, isso leva a direção de arte a conceituar sua pesquisa de uma forma muito minimalista com exatidão em detalhes, integrando ao desenvolvimento do filme a fidelidade necessária para que o espectador reviva a história.

Começando uma análise pelos filmes de época, podemos afirmar que para a direção de arte o momento da criação é onde todo filme acontece, pois é nessa pesquisa que o diretor de arte encontra o seu mundo fílmico. Então é preciso trazer à tona tudo o que existe na ideia, na sensação que aquela história roteirizada passa sobre determinado nichos e os padrões de comportamento que cercavam aquelas pessoas, isso acontece, para o departamento de arte, identificando desde tecidos, moldes de costura, aviamentos usados na época que o filme se passa até a representação que determinados objetos de cena tem.  Uso como exemplo o filme “A OUTRA” (2008), em que o universo inglês do século XVI é recriado para contar uma história de poder, inveja e política. Primeiro a paleta de cor usada para o filme é estruturada nos tons que mais encantavam a monarquia naquela época, cores que passavam um sentimento de superioridade, imponência, sensualidade, características encontrada nos grandes palácios, por pessoas que viviam cercadas pela ostentação e que usavam de todos os recursos para manter-se nesse lugar. Depois o figurino do filme traça a personalidade dos personagens de uma forma muito clara e fiel, é usado muito veludo, pele, pérola, tecidos finos que eram produzidos especificamente para ser usado pela corte. Aliado à cenografia com grandes cortinas, uma tapeçaria única, um mobiliário impecável, bem como as louças escolhidas para as cenas em que acontecem as refeições, onde muitas vezes, são nesses momentos que se configuram as maiores articulações políticas, o filme compõe um retrato extremamente original da época. A política contada dessa maneira deu à direção de arte a possibilidade de reinventar-se como linguagem, pois alguns detalhes narrativos nesse gênero cinematográfico é parte de composição da arte.

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Maria Antonieta de Sofia Coppolla – Filme ganhador do Oscar de melhor figurino.

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The Other Boleyn Girl

As irmãs Bolena – Uma história que marcou as relações na corte inglesa.

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A Rainha Elizabeth e a recriação de Cate Blanchett.

Passando para os fatos históricos específicos, como a ditadura militar, que ainda ressoa fortemente na nossa sociedade atualmente, o cinema político tem transformado alguns filmes em um verdadeiro manifesto, pela busca de uma justiça por pessoas que viveram na época desse regime e tentaram lutar pela liberdade. O primeiro exemplo que uso é o filme alemão Adeus, Lênin!(2003), em que aborda como contexto sócio político a queda do muro de Berlim e a unificação das duas Alemanhas, na história o protagonista Alexander precisar recriar para sua mãe, que ficou em coma entre os anos de 1989 e 1991, portanto sem saber das principais mudanças políticas vividas pelo país, o mundo que ela vivia antes de entrar em coma. É importantíssimo notar do trabalho da direção de arte nos momentos em que ele aparece buscando produtos que eram consumidos no tempo passado, os objetos de cena como os potinhos de alimentos em conserva, as garrafas de suco, as embalagens plásticas, todo o figurino dos atores em cena, enfim, toda arte desenvolvida ali transporta o expectador para aquele mundo passado, e mais ainda, quando o filme sai desses momentos para o tempo fílmico presente, temos a nítida noção do discurso político buscado pelo diretor.

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Adeus! Lênin. Cinema Alemão e um olhar sobre sua própria história.

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O Chileno “Machuca” recria a tomada do poder pelo ditador Augusto Pinochet.

Nesse campo o cinema brasileiro também tem construído grandes imagens dessa época, filmes como “O que é isso companheiro?” (1997), “Terra Estrangeira “(1996), “Quanto vale ou é por quilo” (2006), “Quase dois irmãos” (2004) e “Zuzu Angel” (2006) são alguns das muitas obras que retratam nosso passado recente. Particularmente “Zuzu Angel” é um dos filmes que melhor podemos conceituar direção de arte para esse gênero, primeiro pela história ser centrada na biografia de uma estilista que nos anos 70 lançou uma moda totalmente brasileira, realçando cores e estampas muito particulares ao país, por outro lado, ela é mãe de Stuart Angel, jovem que foi assassinato pela ditadura militar e teve o corpo jogado no mar. Assim sendo todo o universo imagético que Zuzu Angel está mergulhada é o contrário dos seus sentimentos, então vemos uma mulher elegantemente vestida, maquiada, com joias e adereços extremamente elitistas, procurando desesperadamente seu filho morto pela ditadura, passando por lugares sombrios, sem vida. Tem no próprio clima do filme toda a ambiguidade e dúvida daqueles tempos. Outro fato importante ligado à narrativa, é que conforme os dias vão passando, e a angústia dela se torna um total desespero, ela recria sua obra para dar voz aos seus sentimentos, então fora do Brasil lança uma coleção criticando a censura que a ditadura militar determinou no país, essa atitude muda a estética da sua criação e todo o figurino da estilista. Além de tudo o visual da Luana Piovanni que vive a Elke Maravilha é incrível.

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Patrícia Pillar vive a estilista Zuzu Angel, o próprio cenário remete à criação da direção de arte. Muitos croquis, mostra de tecido, molde.

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Luana Piovanni e Elke Maravilha no filme Zuzu Angel.

Para finalizar vou abordar um pouquinho os filmes que tratam relações políticas governamentais. O mundo real onde as articulações acontecem, lugares como gabinetes e salas dos prédios públicos são ambientes que trazem na sua herança uma história contada por muitos detalhes, fotos, objetos históricos, pois por ali já passaram muitos homens que a seu modo dirigiu a história do seu país. Vemos isso em filmes como “Os Infiltrados” (2006), “Diamante de Sangue” (2006), “Olga” (2004), “O Segredo dos Seus Olhos”(2009), entre outros. Recriando esse mundo a direção de arte conta ao público a história do desenvolvimento da política na sua essência. “Che”(2008), “Milk- A Voz da Igualdade”(2008), conceitua muito bem a ideia aqui desenvolvida de como os interesses políticos vêm determinando o destino de muitas pessoas. As narrativas que centram suas histórias nos bastidores nos faz conhecer o gosto particular, o requinte que sempre moldou esse universo de poder e os padrões pré-estabelecidos por eles, a ser seguido por todos a sua volta. No filme “FROST X NIXON”(2008), onde o apresentador mais subestimado dos meios de comunicação popular consegue uma declaração de Richard Nixon a respeito do escândalo de Watergate, podemos perceber muito desse lugar de criação da arte. Além da direção de arte retratar o mundo político de um ex-presidente soberbo, arrogante e preconceituoso, onde o molde de masculinidade é determinado pela vestimenta e por hábitos vindos de tempos imemoriais, ela caracteriza muito bem os dois personagens e o nível de diferença entre eles. O momento mais sutil e determinante disso é no primeiro encontro entre Frost e Nixon, onde o ex-presidente questiona o sapato usado por David Frost, lá no final vamos perceber que essa particularidade é uma construção narrativa muito forte. Assim os detalhes são muito importantes na hora de pensar a imagem de uma história. Por fim podemos perceber o quanto o desenvolvimento da direção de arte constrói algumas sensações que estão presentes no universo de um filme. Temos muito a entender a respeito da história das relações política e de como ela nos afeta nos dias atuais e o cinema nos dá uma grande ajuda nesse aspecto.

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Frank Languella e Michael Sheen revive o encontro histórico entre Richard Nixon e David Frost

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“Milk – A Voz da Igualdade” do genial Gust Van Sant. que retrata a trajetória de Harvest Milk, o primeiro homossexual declarado a ser eleito para um cargo público na Califórnia. O filme foi indicado em 8 categorias para o Oscar, incluindo melhor figurino.

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O Argentino “Elefante Branco” é um olhar sobre o submundo das drogas e as relações políticas por trás desse tema.


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