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Wong Kar-Wai: A direção de arte como mergulho na s...

Wong Kar-Wai: A direção de arte como mergulho na sentimentalidade dos personagens

O cinema tem na sua essência uma maneira muito diversa e própria de transpor o espectador para universos imaginários, mas alguns diretores conseguem nos levar à particularidade dos sentimentos, refletindo em nós certa noção de identidade, que algumas vezes, descobrimos que existe no momento em que vemos no filme situações valendo como reflexos de nós mesmos. Assim construímos uma intensa cumplicidade com determinadas histórias; Wong Kar-Wai é um desses realizadores. A sensibilidade e força dos personagens  vem de um espírito lúdico e intenso que funciona como metáforas, uma forma muito particular e autoral que esse avassalador diretor elegeu como linguagem própria, construindo assim uma gama de experiências sensoriais sobre estar na vida.

Nesse texto abordarei um pouco o caminho da direção de arte na elaboração de sensações e sentimentos que fazem do cinema desse mestre do tempo abstrato um mergulho profundo no ser humano contemporâneo.

2046

“2046”: Uma revolução estética que indica caminhos contemporâneos para criação.

O cinema agrega uma extensão ativa e pulsante de histórias que tratam as mais variadas formas de relacionar-se do ser humano. Para o Wong, os conceitos dessas relações estão no sentido vasto e enigmático que cada pessoa tem. Assim os encontros da vida valem como experiências para mudanças de olhares que trazemos em nossa vivência, sobre si mesmo e sobre o outro. O cinema do desse chinês sensível e intenso trata da sentimentalidade humana como a parte mais importância da essência do ser. Quando tinha cinco anos, ele e sua mãe foram forçados a fugir da China comunista refugiando-se em Hong Kong, deixando seu pai e irmãos para trás, com isso, durante toda a infância até os dezesseis anos Wong sentiu essa mudança como a maior perda que poderia acontecer a alguém, a condição solitária de uma criança que cresceu distante do seu lugar reflete em sua obra,  personagens que estão sempre sofrendo pela ausência da pessoa amada, procurando reencontrar-se, finalizar as histórias de amor mal resolvido que estão existindo nas narrativas como uma metáfora fortíssima para o estado de estranhamento que determinadas situações, fora do nosso controle, nos causam, com isso ele dá imagem à certos estados do homem, a solidão, o deslocamento, as dores do existir, estão todos representados por objetos sutis.  Ainda observando subterfúgios que sempre aparecem nas narrativas, que remetem a forte influência do cinema de Antonioni e Godard, condensando uma imagem extremamente particular, lenta, descontínua, onde  ao mesmo tempo em que informa e coloca em dúvida o que está sendo dito/mostrado, intenciona no espactador entendimentos próprios. Por isso filmes como “Amores Expressos” (1994), “Felizes Juntos” (1997), “Amor à flor da pele” (2000), “2046” (2004), “My Blueberry Nigths” (2007) têm no seu espírito múltiplas camadas de acontecimentos, onde algumas vezes, nós como espectadores nos perdemos na história, sem saber se alcançamos com exatidão aquele personagem, porque a centralidade do diretor volta sempre  para algo ainda inacabado.

amorflordapele

“2046” – O filme é uma revisão pessoal do diretor sobre sua carreira.

O que mais me chama aos filmes em geral é a força estética da imagem, dos planos construídos, e de como são preenchidos os espaços dentro do quadro. É nesse momento que a direção de arte acentua as emoções roteirizadas pelo diretor. Levando em conta que Wong Kar-Wai sempre trabalha com o mesmo diretor de arte, que também faz a montagem dos filmes, fica a sensação de que os dois chegaram à uma parceria onde o mote principal existe na imaginação. Para dar significados aos sentimentos a direção de arte dá vida a cada objeto de cena, que é parte da histórias daqueles personagens, assim como as locações queé parte subjetiva das narrativas, e ainda em todos os figurinos  que compõe a personalidade de cada um.

2046

Composição com uma paleta de cor complementar e diversa.

Construindo uma direção de arte onde as cores, a textura, os cenários, objetos de cena e figurino contam parte abstrata da narrativa essa dupla alicerça o entendimento pela percepção sensitiva, pelos detalhes que compõem a cena, onde cada pedacinho complementa um todo. Com isso a direção de arte ganha um campo plural de exploração multifacetando os personagens, como por exemplo, no filme “Amor à flor da pele” onde os caminhos sinuosos que os personagens percorrem são refletidos no apartamento onde eles se conhecem e moram. Um lugar entrecortado e preenchido delicadamente pulsante. As locações são esses sentimentos viscerais, ao escolher a textura descascada de uma parede, uma cortina que divide o cenário, um abajur que ilumina partes do personagem, um sofá onde o tom da cor é mais forte e mais presente do que os atores em cena, o diretor de arte de Wong conta as histórias por trás das ações. Em “Amores Expressos”, o apartamento inundado são as lágrimas do policial 633 que foi deixado pela namorada. Em “2046” os espaços são sempre tomados por acontecimentos simultâneos, onde a vida de um morador invade e desencadeia sentimentos particulares na vida dos outros moradores dos quartos ao lado. Sempre existe uma vida invadindo a outra, e alguns objetos estão ligando os pontos narrativos, como o telefone usado por todos em “2046”, ou o  pote com chaves que conta as histórias vividas no bar de Jeremy (Jude Law) em “My Blueberry Nights”, que faz Elizabeth (Norah Jones) perceber que aquele acontecimento presente é mais comum à vida do que ela pensa. Mas o grande encantamento desse filme é o próprio nome dele, que traduzido corretamente significa “Minhas noites de Mirtillo”. Entendendo a composição da arte como um todo esse momento volta à todo instante durante o filme. Elizabeth que ao ser trocada pelo atual amado sai em uma jornada sem destino, percorrendo lugares fantásticos, conhecendo pessoas com histórias inacreditáveis, volta suas lembranças para as noites de Mirtillo que ela passou no bar de Jeremy. Esse filme, particularmente o primeiro do diretor em Hollywood, é o mais dialogado de Wong Kar-Wai, ainda assim têm essa questão simbólica dos objetos bem trabalhada. Esses momentos podem ser tanto implícito e explicativo quanto subjetivado, dando ao espectador a liberdade de fabulação sobre a imagem e a história que acompanha. Ainda acentuando a memória dos sentimentos escutamos em certos instantes fílmicos os próprios personagens nos contando sobre a importância dos objetos e das emoções que estão aliadas à eles. Elizabeth (Norah Jones) escolhe durante toda sua viagem  objetos concretos que a ligam à Jeremy (Jude Law).

My Blueberry Nights

“My Blueberry Nights” – O cenário como narrativa

My Blueberry Nights 2

Elizabeth e Leslie: É importante notar como o figurino das duas são bem diferentes e bem característicos.

AmoresExpressos

“Amores Expressos”: Marca um frescor sobre as imperfeições humana

AmorAFlor

“Amor à flor da pele”: Uma estética que acentua a maturidade visual do diretor de arte.

Enfim, o estilo plural estético-narrativo de Wong Kar-Wai e seu diretor de arte adiciona ao cotidiano dramático uma série de particularidades cênicas que permite transcender a função meramente ilustrativa das imagens, assim seu cinema contemporâneo e autoral ensina a nós, diretores de arte, que a linguagem imagética tem uma importância narrativa que pode aliar encantamento e liberdade na criação.


  1. Ygor Moretti

    26 setembro

    Não consegui ver 2046 mas Amor a Flor da Pele é um primor, de encher os olhos filme pra ver e observar como se fosse uma tela ou uma arte plástica, incrivel!!! Escrevi uma crítica no site O Cinemista de uma olhada lá… http://www.cinemista.com.br/amor-a-flor-da-pele-cinecult/

  2. Raian

    2 maio

    Só acho que essa postagem podia ter o triplo do tamanho, rs

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