Trocando figurinhas sobre figurinos

Imagine a situação de um filme de época (estilo épico) no qual por acaso você observa um dos figurantes ao fundo com um óculos de sol ou mesmo num filme western o cowboy utilizando um relógio digital, enfim. Muitas vezes você pode não ter notado um furo neste estilo, mas certamente se encontrasse seria no mínimo decepcionante.

No desafio de recriar um mundo paralelo ao nosso que nos faça imergir na história do filme muitas direções de arte já se perderam por deixar de lado um aspecto deveras importante: o figurino.

Essa área da Direção de Arte é de vital importância visto que uma vestimenta representa não somente uma simples roupa, mas muitas vezes um contexto sociocultural que dá mais peso e profundidade psicológica aos personagens fílmicos. Por este motivo a pesquisa por trás da criação é fundamental não só nos filmes de época, mas em filmes modernos para transmissão de signos que comunicam além da imagem.

Um resumo totalmente banal do passo a passo para as diretrizes do figurino de um filme pode ser dado pontuando o início de tudo na pesquisa de arte encabeçada pela equipe de Direção de Arte que dará as diretrizes para o figurinista. Este por sua vez e analisando todas as características psicológicas dos personagens, o contexto histórico, a cenografia/locação, é que irá propor as opções (ou exemplos) da linha estética que serão feitos os figurinos.

Após reunião para aprovação começam as elaborações e confecções  dos figurinos seguidas pelas provas do elenco (no ajuste dos tamanhos, da funcionalidade nas ações de cena, no contexto deste elemento dentro de toda estética do filme para que este não destoe dos demais elementos da arte).

Descrevendo assim todo o processo parece simples e nada complicado, porém demanda tempo e exige muita atenção. Um figurino incorreto pode prejudicar todo um esforço de uma grande equipe. Fora o quão interessantes são cuidados simples como: produzir mais de uma peça de figurino reserva (para qualquer emergência de set desde sujeira a acidente/danificação do mesmo), ou de envelhecer um determinado tecido (para não ficar falso com cara de muito novo)ou preocupar-se com pequenos detalhes sobre a funcionalidade do figurino em determinados ambientes/locações (ex. cena externa na praia e o cara precisa colocar microfone de lapela por causa do áudio para captar o diálogo, onde colocar se o figurinista propôs que o ator ficasse sem camisa?). Fatores como este mostram uma equipe de arte comprometida com o projeto coletivo.

Puxando um pouco para as criações brasileiras mostramos abaixo alguns dos destaques apontados no site da Academia Brasileira de Cinema para Melhor Figurino:

1. BIA SALGADO – por Noel, o Poeta da Vila (STEEN, Ricardo. 2006)

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Como a maior parte do filme Noel – O poeta da Vila acontece nos anos 30, o figurino composto por Bia Salgado mistura alguns elementos da década anterior transitando, nas roupas femininas, entre as cinturas baixas e as marcadas e o linho, nas roupas masculinas, dos sambistas.

O destaque é para a personagem Ceci, vivida por Camila Pitanga, cuja inspiração nasceu das divas do cinema da época, da estilista Coco Chanel e da artista Anita Malfati.

Como a musa de Noel e dançarina de cabaré, Ceci era uma mulher à frente de seu tempo e usa no filme um figurino variado com vestidos sensuais à noite e conjuntos durante o dia, sempre muito maquiada e com unhas e batom vermelhos.

2. CLÁUDIA KOPKE – por Tropa de Elite (PADILHA, José. 2007)

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A orientação inicial do documentarista José Padilha, em sua primeira direção em ficção, era fazer um filme naturalista. Mas a história se passava em 1997, dez anos atrás, nos quais uniformes dos policiais e vestimentas do cotidiano eram diferentes.

Logo, tratava-se de um filme de época, apesar de não tão distante. Ou seja, havia dados nas vestimentas dos personagens necessários de serem pesquisados.

Cláudia Kopke optou por uma escolha de modelos, cores e texturas o mais genérico possível. A própria palheta de cores utilizadas era algo que vinha da realidade em torno, seja no batalhão, nas casas dos policiais ou na favela. O contexto deu ao filme seu tom.

3.CRISTINA CAMARGO – por O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (HAMBURGER, Cao. 2006)

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Apesar de ser um filme de época historicamente recente, Cristina Camargo teve que pesquisar minuciosamente os figurinos de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias em fotografias, filmes, brechós e entre os moradores do Bom Retiro.

E o fato do bairro ter tradição histórica em moda e lojas do ramo, possibilitou encontrar em estoques roupas da década de 70 usadas na produção. Com as crianças foi mais difícil, porque, em geral, as roupas não duram muito e poucas ainda restavam em condições de uso.

Além disso, foi necessário construir o figurino da comunidade judaica que os próprios moradores do bairro ajudaram a compor como o Talit, xale de reza, que é um objeto especial na narrativa do filme.

4. KIKA LOPES – por Zuzu Angel (REZENDE, Sérgio. 2006)

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O diretor Sérgio Rezende não queria uma cópia da Zuzu Angel original, o que fez com que a figurinista Kika Lopes iniciasse suas pesquisas dois meses antes das filmagens. E foi recorrendo a fotos e vestidos na casa da colunista Hildegard Angel, filha de Zuzu, a jornais e revistas da época e a brechós que o figurino da personagem foi composto.

Tudo era réplica ou releitura. O único vestido original foi o verde usado na cena do casamento de Stuart, encontrado em um brechó. A recomposição dos figurinos dos militares também foi trabalhosa em contraposição às roupas usadas por Stuart Angel: basicamente, calça jeans e camiseta.

5. MARCOS PEDROSO – por O Céu de Suely (AINOUZ, Karim. 2006)

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A pesquisa prévia do diretor de arte Marcos Pedroso, iniciada ainda nos primeiros tratamentos do roteiro, criou um universo provável de cores fortes que resistissem ao sol do sertão nordestino.

Mas foi na locação, em Iguatu, que as escolhas de figurino encontraram sua verdadeira referência. Diferentemente do que esperava a equipe, eles encontraram uma Iguatu pop, mundo de misturas culturais e temporais.

Por isso, foi necessário “desdobrar” cada personagem, descobrir qual a sua cor e qual a sua roupa, criando uma diferença em relação à Hermila, que havia vivido em São Paulo e de lá trazia outras referências.

(Fonte: Academia Brasileira de Cinema)


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