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Morte aos designers?

Texto de Guilherme Sebastiany

Se você está lendo este texto, é provavelmente porque o título gerou-lhe alguma forma ou de curiosidade ou repulsa.

Repulsa, foi também o que senti, anos atrás, ao ver pela primeira vez, no bazar de um N-Design (encontro anual e nacional de estudantes de design) a venda de um adesivo com a frase “MORTE AOS MICREIROS”. Não era a primeira vez que encontrava esta frase, ou mesmo me deparado com diferentes versões onde o suposto ódio aos micreiros era manifestado. Preconceitos sempre me incomodaram.

Na época de faculdade, de conversas em bares à listas de discussão na internet (principalmente) o tema dos “sobrinhos” ou dos “micreiros” sempre aparecia. O consenso era que estas pessoas que sabem usar alguns softwares e se aventuram a fazer cartazes, sites, logotipos etc, estavam destruindo o nosso mercado, cobrando valores irrisórios e produzindo peças gráficas e digitais de qualidade duvidosa.

Cresci na profissão ouvindo meus colegas falando mal dos micreiros. Mas sabe da verdade? Eu nunca conheci um micreiro. Conheço apenas designers.

GuilhermeSebastiany

Minha questão aqui não é a aparentemente eterna e definitivamente imaginária briga que vemos entre micreiros e designers. E sim o que ela abriga: A fantasia de um inimigo, que age de maneira leviana, é anti ético, plagiador, grosseiro, e que acaba com o nosso mercado.

Nunca soube de nenhum micreiro que tenha realmente me “roubado” um cliente. Provavelmente isso até já ocorreu, mas não seria muito diferente das muitas vezes em que perdi projetos para outros designers de outras especialidades (produto, web etc) que cobraram valores irrisórios ou criaram logos de qualidade duvidosa ou para quebrar um galho para o cliente, ou para faturar um extra.

Nunca fui insultado por um micreiro, mas por outros designers, diversas vezes. O mais comum ocorria no meu início de carreira, em listas de discussão onde a simples divergências de ideias transformavam-se em campos de batalha mortais pessoais. Geralmente os “amadores”, que participavam destas listas estavam muito mais interessados em absorver o máximo de conhecimento possível, do que entrar em picuinhas e discussões pessoais.

Claro que no caso de plágios, tanto de marcas quanto dos textos do nosso site, já tivemos problemas com micreiros. Ainda temos e infelizmente isso é uma triste verdade. Mas também sofremos plágios feitos por publicitários, por profissionais de marketing, e até por engenheiros agrônomos. Infelizmente também é verdade que o número de plágios que sofremos por micreiros é praticamente o mesmo dos cometidos por designers ou estudantes de design.

Mas voltando ao assunto, nenhum micreiro jamais entrou em contato comigo se fazendo passar por um cliente para descobrir os valores que cobramos no escritório por um projeto. Mas no período que ainda respondia os contatos que chegavam pelo site, a frequência de designers e estudantes de design que o faziam era quase quinzenal. Uma simples busca do nome e e-mail no Google delatavam o autor. Apenas uma observação aqui: Este tipo de atitude “esperta” pode até ser enquadrado como falsidade ideológica. É crime.

Também nunca vi nenhum micreiro favorecer seus amigos em concursos, publicações ou exposições. Nunca vi um micreiro fazendo difamação para prejudicar seus desafetos ou falando mal dos colegas pelas costas. E nunca conheci nenhum micreiro com o ego tão inflado que tornasse a relação pessoal uma tortura para os outros a sua volta. Mas como falei antes, nunca conheci nenhum micreiro. Não é mesmo?

Essa é apenas a minha experiência no assunto. Talvez a sua seja diferente. Talvez você tenha tido realmente muito mais problemas com micreiros do que eu. Não duvido disso. Mas o que lhe pergunto é:

Você já não passou pelos mesmos problemas também com seus colegas designers?

Talvez em lugar de procurarmos um bode expiatório (ou aceitarmos aquele que nos é convenientemente apresentado) devêssemos estar mais preocupados com o tipo de profissional que estamos formando, e que tipo de ética este profissional está construindo no nosso mercado.

O mercado de design é o que fazemos dele, e a realidade que se apresenta hoje, boa ou ruim, é apenas um reflexo das pessoas que neles atuam. Isso vale desde as faculdades, no ensino e formação, passando pelos profissionais, escritórios e suas práticas, até as associações de classe existentes.

Os inimigos não são os micreiros. Infelizmente, somos nós.

Confira o trabalho de Guilherme Sebastiany em http://www.sebastiany.com.br/

Publicitário com experiência de 10 anos em Comunicação e Marketing, atuando com foco nas áreas de Criação, Inovação e Design para o mercado de Jogos e Entretenimento. Experiência complementar em Desenvolvimento de Produtos e Marketing Digital. Graduado em Comunicação Social com MBA em Marketing pela ESPM. Vasto conhecimento do mercado de Jogos e Entretenimento e entendimento do comportamento do consumidor infantil e do jogador.

Comments

  • Arlen Costa de Paula 11 de agosto de 2015

    Desde que me interessei por entrar e atuar na área de design gráfico, meu caminho foi torto, pois queria ser esse profissional com formação em publicidade e propaganda, porém na época não tinha condições de pagar um curso superior, o caminho que me surgiu foi ingressar nas Artes Plásticas, no qual agradeço até hoje por ter me dedicado mais de 5 anos nesse curso. Meu horizonte se ampliou, me aprofundei nos meus objetivos e vi sim como está descrito no texto, pessoas que diziam ou dizem trabalhar com design e artes em geral realizarem trabalhos com gosto duvidoso. Porém o que concluo disso, é que qualquer profissão que seja, temos de nos entregar com amor a causa, pois senão seremos mais um medíocre a fazer tarefas delegadas a nossa pessoa e é o que testemunhamos. Falta ética, respeito sim, mas é preciso ser forte para ir além disso e se estabelecer em um patamar em que o bom trabalho será realmente necessitado e apreciado. Ou seja, vamos a luta.

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  • Rose 15 de agosto de 2015

    Eu descobri que sou micreira hahaha! Faço na maior humildade o cartão do eletricista, o blog basiquinho, flyer, convite de criança ou seja trabalhos que um designer não pegaria. E será que alguma agência daria oportunidade? Certeza que não. Então porque o mimimi “roubam meu trabalho”. Quem se preocupa com micreiros? →Designers medíocres.

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  • Guilherme G. Longhini 14 de setembro de 2015

    Sou micreiro? Não sei talvez sim! Mas estudo design a muito tempo e estou na área a 10 anos. Mesmo não tendo formação na área, sempre procurei estudar e muito, e ainda faço isso, altas madrugadas fazendo estudos e lendo muito muito. Talvez meu portfólio não seja dos melhores, muitos clientes querem e gostam de fazer uma Logo ou qualquer outra arte que tenha sentido, que não seja só algo “bonitinho”. Mas infelizmente muitos ainda pensam assim, em apena fazer uma escrita, ou uma imagem bonitinha, muitas vezes a Logo não tem nada haver com a empresa, e você fala para o cliente mas ele quer daquele jeito, e todo mundo precisa pagar conta né rsrsrs? Quero dizer que mesmo a pessoa sendo um micreiro ou sobrinho, ela pode ser sim profissional, apenas lhe falta uma oportunidade de mostrar o que sabe. Muitos sobrinhos roubam sim trabalhos vão oferecer e cobram valor mais baixo, acho muito falta de respeito isso, já peguei trabalhos de designers que eram formados e com mais experiência, mas no meu caso o cliente sabia que cobrava mais barato e ele veio até mim, então creio que isso não é roubar trabalho. E por que faço mais barato? Pois não sou formado e sei quanto que vale meu trabalho. A partir do momento que você se forma ou faz um curso novo e aprende técnicas novas, isso agrega valor no seu trabalho.

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  • Cauê Buck 14 de janeiro de 2016

    Guilherme, você não merece Palmas, merece o Tocantins inteiro rsrs.
    Brincadeiras a parte, concordo em gênero, número e grau. E ainda complemento, sempre somos o “micreiro” de alguém.
    Sempre achei esse olhar de que “estão prostituindo o mercado”, é uma desculpa para não se buscar um aprimoramento mais profundo e se capacitar para “brigar” por clientes que pagam aquilo que você acha justo pelo trabalho que desenvolve.
    Quando iniciei meus primeiros trabalhos com branding, era um total perdido. Por mais que já tinha estudando, dominava alguns softwares de criação gráfica, não tinha a mínima noção da importância de uma boa construção e posicionamento de uma marca.
    Fui me capacitando (e ainda estou), estudando muito, cada vez mais e com isso o custo pela minha hora de trabalho ou por job foi evoluindo. Meu perfil de cliente mudou e o meu ticket médio também.
    Defendo sempre que cada um tem ou não, o cliente que merece.
    Você perde o trabalho para um micreiro por dois motivos:
    1) O cliente é ruim.
    Não da valor ao trabalho que você realiza, portanto não deve ser motivo de frustração.
    2) O Micreio é melhor que você.
    Sim, já diversos amigos reclamando de ter perdido o trabalho e alegaram que o “sobrinho” deve ter feito quase de graça, mas após dar uma rápida pesquisada encontrei alguns trabalhos do “sobrinho” e percebi que desenvolveu ótimos projetos.

    Então menos mimimi, mais estudo e aprimoramento em seus trabalhos. Busque clientes que mereçam e que estejam dispostos a pagar o que você julga correto.

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  • Paulo Azevedo 14 de janeiro de 2016

    Talvez um dos piores inimigos sejamos nós mesmos, quando nem atitude, e muito menos representatividade, como classe, tivemos diante de negativa de nossa presidenta quanto a aprovação da regulamentação de nossa profissão; é só observar que na realidade estávamos representados por uma pessoa que nem designer é, lá na Câmara de Deputados. Embora, particularmente já tenha sofrido alguma perda diante de negociações ridículas de antiprofissionais, o lado inverso já me foi muito prazeroso proporcionando ganhos, experiência e conhecimentos. Porém grande verdade é que temos que descer do palco, trabalhar como classe unida a partir de um espelhamento em associações e conselhos já existentes para buscar e mostrar respeito. Até isso acontecer muita coisa vai rolar. Este artigo do mestre Guilherme Sebastiany já conheço há muito tempo, no entanto continua mais atual do que nunca. Abs.

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  • Corine Cardoso 14 de janeiro de 2016

    Existe mercado para todos. A pizzaria do Zé da esquina não tem dinheiro para pagar um projeto de publicidade, marketing, design. Então a loja dele deveria ser aberta sem nome, sem marca, sem fachada, sem folheto, sem imã de geladeira, sem uniforme? Ainda bem que existem pessoas que atentem esse público. Que sabem fazer um desenho e criar uma identificação para o Seu Zé. Para ele não parecer um comércio ilegal ou sem qualidade. Olha que bonita essa caixa de pizza colorida, Seu Zé fez uma marca bacana! E apesar da marca não expressar o DNA da empresa (que nem definiu um) está batendo a meta de vendas esperada todo mês, com trabalho duro e pizzas gostosas.
    Se não houvesse o acessível, nosso mercado seria extremamente etilizado, afinal, design é caro. Só as grandes empresas teriam marcas, identidade visual e panfletos de divulgação. Seu Zé agora tem até um sobrinho que está tocando sua página no Facebook com várias matérias sobre a Italia e sabores exóticos de pizzas. É o primeiro emprego do garoto, e ele ajuda seu pai a pagar as contas de casa. Seu pai trabalha na gráfica e deu a idéia de distribuir os imãs de geladeira junto com a caixa de pizza, feita lá mesmo, no Corel.

    Mas Corine, e as grandes empresas que pagam o sobrinho ao invés dos Designer? Deixa eu te contar uma coisa: o cara prefiriu ele e não você. Seja por preço, praticidade ou empatia. Ele não está te atrapalhando, é você que escolheu uma empresa que não dá valor ao Design para prospectar. Pare de desejar o dinheiro dos outros e ganhe o seu. Como eu disse: tem público pra todos, você só precisa correr atrás dos que acreditam e pagam pelo o seu trabalho.

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